quinta-feira, 21 de Agosto de 2014

Festa de pouca dura...

Japan has fallen victim to the Keynesian scam


E mais uma vez! E mais uma vez! E mais uma vez!
Avisamos com a devida antecedência para a diarreia monetária... que só podia dar onde deu... mais dívida.



Gráficos descortinados

Estes gráficos que foram recentemente publicados no Viriatos proporcionaram um excelente debate na caixa de comentários no Observador.

quarta-feira, 20 de Agosto de 2014

Um país sem juízo

(Via Impertinências)

CASE STUDY: Banco de Portugal, outra aplicação prática da lei de Parkinson

C. Northcote Parkinson enunciou a lei que leva o seu nome (ver aqui) observando vários exemplos, incluindo o do departamento das Colónias do ministério da Marinha, que à medida que a Grã-Bretanha perdia as colónias, uma atrás da outra, os efectivos do departamento aumentavam.

Se Parkinson vivesse em Portugal teria acesso a um vastíssimo campo de observação a começar pela câmara municipal da capital do país. De facto, à medida que a população da cidade vêm diminuindo há meio século a população dos funcionários da câmara vem aumentando a um ritmo ainda mais rápido até atingir hoje 9.956 funcionários ou seja 1 por cada 55 residentes e o dobro de Madrid ou Barcelona, parqueados em cerca de 300 departamentos e divisões.

(Inspirado no Armour & Co.'s General Office, Chicago, 1900, foto adaptada do Early Office Museum)
Os parágrafos precedentes foram escritos há quase dois anos. A administração pública e o sector empresarial do estado estão povoados de casos semelhantes e poderiam multiplicar-se os exemplos. Se fosse hoje, e a propósito do Banco de Portugal que tem andado recentemente nas bocas do mundo, acrescentaria um outro exemplo citado por Luís Aguiar-Conraria em A Destreza das Dúvidas:

«Dado que Portugal não tem moeda própria, a única função do Banco de Portugal é a regulação e supervisão do sistema bancário. O Banco de Portugal tem 1700 funcionários, quatro vezes mais que o Banco Central da Suécia, que, lembre-se, tem de gerir a sua moeda, a coroa sueca.

O Banco de Portugal é a instituição portuguesa que mais bem paga aos seus funcionários. Paga salários elevados, paga subsídios aos filhos dos funcionários, tem um regime de pensões altamente favorável e por aí fora. Em média, cada funcionário recebe cerca de 5000€ mensais. O anterior governador, Vítor Constâncio, tinha uma remuneração superior (*) à do presidente da FED norte-americana (não sei se é o caso do actual governador, Carlos Costa).»

(*) Constâncio tinha uma tença anual de 250 mil euros, que em valor absoluto era cerca do dobro do salário de Bernard Bernanke, o presidente do FED, ou mais de 4 vezes, se tomarmos em conta o nível médio de salários em Portugal e nos EU.

Quer factura com número de contribuinte?

Supermercados venezuelanos vão controlar as compras através da impressão digital
O sistema biométrico terá caraterísticas semelhantes às do programa Sistema de Abastecimento Seguro.

As autoridades venezuelanas anunciaram esta quarta-feira que vão empregar um sistema de controlo biométrico nos supermercados públicos e privados para controlar compras recorrentes do mesmo produto pelo mesmo cliente e combater o contrabando. O anúncio foi feito pelo responsável de Preços Justos, Andrés Eloy Méndez, e o sistema deverá estar em funcionamento até ao final do ano, servindo ainda para combater a economia informal. O sistema biométrico terá caraterísticas semelhantes às do programa Sistema de Abastecimento Seguro (SAS), que o Governo venezuelano desenvolveu nas redes públicas de distribuição de alimentos e que, segundo várias fontes, consiste na atribuição de um cartão numerado com os dados do cliente e que estará associado às suas impressões digitais.

Ler mais em: http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/ultima-hora/supermercados-venezuelanos-vao-controlar-as-compras-atraves-da-impressao-digital


Meta-se com o socialismo e depois não se queixe quando for mesmo a doer...



segunda-feira, 18 de Agosto de 2014

O efeito salário mínimo

Dos 308 concelhos portugueses, 301 perderam população jovem entre 2001 e 2011.



domingo, 17 de Agosto de 2014

A vida “no” capitalismo

A vida “no” capitalismo traz a falsa impressão de ter perdido o seu valor quando se valoriza mais o dinheiro e a posse do que as pessoas. É aquela velha ladainha que propiciou muitos autores de auto-ajuda facturarem uma baita grana: “hoje se valoriza só o ‘ter’ e não o ‘ser’”. No entanto, os críticos não percebem que a economia de mercado não é a causa dessa desvalorização. A “coisificação” do homem, para usar expressão já bem popular, não vem “do” -- embora aconteça “no” -- capitalismo. Se as pessoas supostamente se realizam nessa busca desenfreada pelo consumo, o capitalismo seria só o meio em que isso se dá e não a “fonte”. Esse “consumo ostentação” não pode ter como fonte o “ambiente económico”, pois isso é só o meio. O problema mesmo está num princípio antropológico muito mais sério: a miséria humana, o tédio, o medo da morte e a completa falta de sentido. Como diria Platão, o desejo humano é um saco sem fundo e o homem não é a própria medida.

Francisco Ratzo

A ameaça capitalista

Esse bolinho é uma ameaça capitalista para a Coreia do Norte

A Choco Pie era tão valorizada pelos norte-coreanos que se tornou uma espécie de moeda no mercado negro, mas foi banida pelo governo.


Choco Pie
Choco Pie: moeda de troca no mercado negro

Na visão do governo norte-coreano, até um delicioso bolinho de chocolate pode ser uma ameaça ao regime comunista. As Choco Pies - bolinhos de chocolate recheados de marshmallow - eram tão populares na Coreia do Norte que se tornaram até uma espécie de moeda no mercado negro.
Segundo o jornal inglês The Telegraph, o doce é tão valorizado pelos norte-coreanos que uma fábrica o usava para pagar seus empregados: eles vendiam os bolinhos e com o (bom) dinheiro que ganhavam, podiam comprar outras coisas.

Mas a alegria durou pouco, o governo norte-coreano achou que essa valorização de um bem capitalista era uma ameaça e proibiu que as fábricas usassem a guloseima para pagar os funcionários.
Para não deixar os vizinhos sem seu doce preferido - e também para protestar contra a ditadura norte-coreana -, ativistas sul-coreanos simplesmente enviaram 50 balões carregando 10 mil Choco Pies para o lado norte-coreano da fronteira. 
A tática já havia sido utilizada por eles para mandar "conhecimento do mundo" para os vizinhos em panfletos e dispositivos USB. 
publicado aqui
Choco Pie

sexta-feira, 15 de Agosto de 2014

A bolha do estado social




Olhos nos Olhos - Medina Carreira - 28/07/14

Uma análise da democracia


A alternância de poder é essencial para o funcionamento dos mecanismos democráticos.
A democracia se sustenta através da corrosão moral da sociedade, matando nas pessoas o espírito anarquista, que deriva tanto da vocação natural para a liberdade quanto do senso de justiça inato, factores que nos tornam humanos.
A democracia necessita, portanto, da desumanização do homem para se manter.
A elite monopolista que detém a informação a respeito dos agentes políticos controla o processo a partir dos bastidores. Aquilo que está visível para o povo é uma pequena ponta de iceberg distorcida pela névoa mediática.
O povo acredita então que há uma real alternância de poder. De fato, entre os membros dos grupos que disputam os cargos públicos há uma rivalidade, tanto maior quanto menor for o escalão do membro em questão. 
São estes conflitos que as entidades supranacionais e supra-partidárias exploram.
As maiores rivalidades e os piores conflitos dar-se-ão entre os indivíduos. Em um sistema de livre mercado eles estariam, via de regra, cooperando entre si para aumentar seus lucros, buscando o comum acordo. Numa democracia as associações voluntárias entre indivíduos são substituídas por agrupamentos com natureza de turba, subsidiados pela perversão institucional promovida pelo establishment, e que atacam as minorias circunstanciais. Ressalte-se a palavra circunstancial, pois todo indivíduo é uma minoria na maior parte do tempo, principalmente quando está pensando e reflectindo moralmente.
Um grupo partidário se elege ao prometer espoliar e agredir minorias circunstanciais dispersas e dar o esbulho aos grupos de interesse que o elegeram. Estas intervenções nas liberdades e na economia, no entanto, gerarão erros e incertezas que prejudicarão a sociedade inteira, inclusive os incautos de má fé que pensaram que iriam se beneficiar.
Os únicos realmente beneficiados são as elites supra-políticas que consolidam sua posição de poder à medida que o estado se expande.
O partido na situação, entretanto, queima seu capital político ao investir na expansão do aparato estatal. Esta expansão, que nada mais é do que um crime brutal de agressão contra a população, esbarra no que resta do espírito de resistência anárquica que nos torna humanos, gerando descontentamento.
Mas enquanto houver legitimação ideológica ao estado e à democracia, a revolta não se traduzirá em uma saudável atitude de rebeldia, desobediência civil, corrupção regulatória e deboche da legislação. 
Se converterá, no entanto, em acumulo de capital político dos grupos em oposição.
 Os termos oposição e situação são ilusórios. O termo correto seria reserva e front. São peças de xadrez do mesmo lado, o lado da tirania. As forças no front desgastam seus contingentes enquanto as forças na reserva se recuperam.
É esta alternância que impulsiona a longa marcha da opressão, e que numa democracia se transforma em uma carga blindada, sendo que o manto de aparente moderação e a falácia do poder popular fazem as vezes de blindagem (ideológica). Experimente criticar a democracia numa reunião social e você entenderá do que estou falando.
Os grupos na reserva (oposição) valem-se então de falácias económicas para incutir nas pessoas a ideia de que o governo (deles) será a solução para os erros cometidos pelo grupo anterior. Algumas vezes o estado recua um passo para poder avançar dois, em uma inteligente síntese de Maquiavel com Sun Tzu. É por isso que a direita política actual seria considerada um imperialismo totalitário de esquerda há 100 anos atrás.
Ao mesmo tempo, e especialmente durante as fases de desaceleração da expansão estatal, o progresso tecnológico e o acúmulo de capital económico pela sociedade e que ocorrem apesar do estado, aliviam as tensões sociais conferindo uma lua-de-mel política ao grupo agora no front (situação). É assim que o parasita inteligente age: dando um tempo para que o hospedeiro produza mais sangue. Ou como colocaria Molyneux, a liberdade propicia o crescimento do bolo económico que serve de alimento para o cancro estatal.
Não demora para que este grupo se valha do capital político recém-poupado para expandir os tentáculos governamentais em áreas cujos efeitos far-se-ão sentir a prazos maiores. 

Paulo Kogos 
(texto com ligeira adaptação)

quarta-feira, 13 de Agosto de 2014

Pobres Ricos e Ricos Pobres

Muito se ouve falar nos media que este é o mais rico de Portugal, aquele é o 2º, e por aí fora.
E todos os anos aparecem novos rankings, fazendo notícia que fulano desceu três posições para 560 milhões de euros e sicrano subiu cinco posições para 900 milhões de euros.

Enfim, com tanta lavagem ao cérebro da malta, não é de espantar que se crie na sociedade a impressão de que estes ricos possuem mesmo os 560 milhões de euros ou os 900 ou o que for.

Mas a verdade é que as coisas não se passam bem assim, na medida em que toda essa riqueza pouco ou nada se reflete em cash depositado no banco. A contabilização vai sobretudo às ações, aos imóveis e ao valor que se atribui a esta ou aquela empresa detida em x por cento.

Por sua vez, todos estes "ativos" podem e pelos vistos são dados como colateral para obterem toda a espécie de financiamento. Um caso para mim caricato foi Ricardo Salgado ter dado ações da Tranquilidade como garantia para um empréstimo qualquer. Ou seja, se o empréstimo for liquidado estamos bem, mas se não for, este "tesouro" que Ricardo Salgado possuía vai-se embora, muda de mãos.

Com a quantidade de ativos que o GES possuía, não deve ter sido difícil obter financiamentos quase ilimitados. O problema aparece quando esses empréstimos financiam atividades que dificilmente são rentáveis. Não havendo lucro, mais cedo ou mais tarde o dinheiro fica curto para pagar a todos. Mas enquanto houver financiamento, tapar buracos com mais dívida será sempre uma tentação difícil de resistir. O caso mais paradigmático vem do próprio Estado Português, que se endivida há décadas para tapar défices.

Toda esta forma encapotada de gerar dívida e ao mesmo tempo transparecerem que são ricos criou a sensação nos portugueses de que a riqueza deles estava lá e era real.
Criavam-se as condições para que se iniciasse mais um processo de expropriação dos pobres/classe média que até tinham guardado algum de lado para um futuro incerto.
Bastava para isso criar as ferramentas que apelassem ao português a investir as suas poupanças nas empresas dos ricos. Depósitos a prazo com remunerações bem simpáticas ou então aquisição de empréstimos obrigacionistas com taxas de juro fixas completavam o cenário.

O português lá se enfiou no barco e ao entrar era recebido com boas vindas, funcionárias simpáticas e mordomias vãs, que em tudo o faziam sentir integrado no clube dos ricos. Ascender na escala social dá prazer e portanto uma nova etapa surgia na sua vida.

Não saber como funciona a atividade bancária a nível mundial ou como se interpreta um balanço e os rácios de um banco ou até de uma empresa pode sair muito caro quando confiamos o nosso dinheiro aos seus líderes.
A ignorância aliada a um sentimento de deslumbramento é coisa perigosa.

Tiago Mestre

terça-feira, 12 de Agosto de 2014

Amanhã de manhã já vai tarde...



“Portugal precisa de uma Direita que recuse jogar com os valores da revolução francesa”

Filipe Faria é docente e doutorando em Teoria Política no King’s College, em Londres, e um colaborador do nosso jornal. O DIABO entrevistou-o sobre a dicotomia Direita/Esquerda, a Direita em Portugal e os novos movimentos tradicionalistas que surgem na Europa.



Ainda faz sentido falar em Direita e Esquerda?

É importante lembrar que a dicotomia Esquerda/Direita é produto da revolução liberal (francesa), onde a primeira tenta aprofundar os valores da revolução (igualdade e liberdade) e a segunda tenta defender a velha ordem aristocrática, tradicionalista e hierárquica. Olhando para o que chamamos de Direita em 2014 é possível perceber a dimensão da vitória das forças de Esquerda, pois há muito que estas últimas suprimiram a própria Direita original; o “direitismo” institucional contemporâneo não é muito mais do que a defesa de um elementar igualitarismo individualista com umas temporadas de atraso em relação à vanguarda de Esquerda. Esta derrota não é surpreendente, jogando com as regras instituídas pela Esquerda, a Direita limita-se a tentar marcar alguns pontos num campo institucional claramente inquinado. Aqueles que rejeitaram jogar este jogo não estão no mundo político.


Qual é a Direita que Portugal precisa?

A Direita que Portugal precisa é uma Direita que recusa jogar com os valores da revolução francesa; que está determinada a inverter o paradigma moral de forma a que as ideias igualitárias que tomaram o ocidente passem a ser vistas como degenerativas para a civilização e não como uma opção de 50 por cento entre Direita ou Esquerda. Ao rejeitar-se a moralidade igualitária que se implantou com o iluminismo, acabar-se-á esta dicotomia ao nível político; mais especificamente, a Direita portuguesa precisa de novas referências morais e intelectuais do que as que tem agora. Agora, esta divide-se entre a tecnocracia anti-intelectual dos gestores económicos (i.e. economia de mercado mais ou menos social-democrata) e, em menor grau, entre a justificação moral (consequencialista ou deontológica) da soberania do indivíduo e da sua propriedade via autores como John Locke, F. A. Hayek ou até a famigerada Ayn Rand (corrente muito influenciada pela hegemonia cultural americana). Ademais, parece-me claro que o que mais caracteriza a Direita geral é uma obsessão inusitada pelo crescimento económico como se este fosse o imperativo categórico da praxis política, relegando praticamente tudo o resto para planos insignificantes.

Como tal, esta Direita que Portugal necessita é uma que rompe com a ideia de que a soberania do indivíduo é o fim último da política e abraça fins comunitários. Isto é, que identifica o grupo que representa e ambiciona elevar, rejeitando universalismos abstractos; uma Direita que rejeita a ideia de que a função da política é libertar o indivíduo das amarras da tradição comunitária e hierárquica. Será uma Direita mais intelectualizada e revitalizada para agir. Necessita igualmente de conhecer a identidade particular portuguesa e a nossa identidade civilizacional europeia para as defender, sabendo que ambas são unas e indivisíveis. Ao nível intelectual, irá requerer uma consiliência multidisciplinar onde autores como o católico Alasdair MacIntyre e a sua crítica à soberania moral do indivíduo será tão familiar como Friedrich Nietzsche e a sua análise da função da moralidade, assim como implicará conhecimento de sociobiologia para melhor entender as forças da natureza e perceber as potencialidades de cada ideia política. Por certo, existirá algo de renascentista nos requisitos desta força motriz que conceptualizo . Acima de tudo, será uma Direita civilizacionista que ambicione deixar de ser Direita.

Quem são os principais inimigos de Portugal?

Os principais inimigos de Portugal são todos aqueles que deliberadamente promovem uma agenda que visa distorcer a sua génese e a sua identidade. Estes estão tanto à Direita como à Esquerda. Tanto o podem fazer por ideologia, por intenções meramente auto-interessadas ou por simples ignorância histórica. A Direita e a Esquerda estão unidas no universalismo individualista e na destruição da tradição e integridade comunitária portuguesa (e europeia); os primeiros acreditam no mundo interdependente ligado pelo mercado onde as fronteiras identitárias são obstáculos a ultrapassar para potenciar o crescimento económico; já os segundos seguem religiosamente o universalismo dos direitos humanos, a versão secular e distorcida da doutrina teísta dos direitos naturais, essencialmente para fins de homogeneização e igualitarização do mundo.

Utilizam argumentos diferentes para atingirem os mesmos fins?
Curiosamente, por vezes os primeiros usam os argumentos dos segundos para atingirem os seus fins e vice-versa, criando assim um bloco central que domina a nossa política. Existem por certo excepções individuais a esta lógica, e raramente alguém se encaixa perfeitamente nestas descrições; porém, esta é a força hegemónica que caracteriza a modernidade política portuguesa e europeia. As identidades grupais estão no caminho desta força, como tal, estas são as primeiras a serem obliteradas.  

Quem são os principais aliados de Portugal?

Os aliados serão, como tradicionalmente, outros Europeus que estejam dispostos a inverter esta utópica homogeneização em curso. Só na sua família Europeia Portugal se poderá encontrar. Serão Europeus que conhecem o seu passado e a sua história, que conhecem as suas origens e antepassados, que não acreditam que o ocidente só existe depois da implantação dos valores igualitários e universalistas de 1789 (“Liberté, Egalité, Fraternité”) e de 1776 (“All men are created equal”) e que rejeitam a actual ideia prevalente de que defender a Europa é defender tais valores. Estes Europeus terão um objectivo comum de defender não uma ideologia fechada mas sim um legado milenar que será a identidade europeia e sua perpetuação qualitativa pelo tempo.

Há quem deposite esperança em alianças com uma Rússia mais tradicionalista para “livrar” a Europa da actual subjugação à ideologia americana do ‘melting-pot’ anti-tradição; porém, independentemente da viabilidade de tal opção,  é importante perceber que para Portugal os interesses comuns últimos estão sempre, por defeito, na sua família civilizacional que é a Europa. Será por aí que o caminho deve começar. Na questão geopolítica a solução mais simples e intuitiva é provavelmente a correcta.

Nascem vários movimentos políticos com alguma envergadura pela Europa fora, como a Genération Identitaire em França, ao mesmo tempo que surgem novas formas de pensar a política de um espectro tradicionalista, como o eurasianismo. Onde está a contribuição de Portugal nesses movimentos, e o que falta para que Portugal veja o surgimento de um movimento particularmente seu?

Parece-me claro que o tradicionalismo está em ascensão meteórica, o que se deve muito aos problemas de carácter cultural, demográfico e existencial que a euro-modernidade nos trouxe. Este tradicionalismo é plástico e revela-se de inúmeras formas, quer através do conservadorismo tradicional, do comunitarismo, do arqueofuturismo, do localismo nacional, do imperialismo histórico, do identitarismo, etc., sendo uns mais intelectualizados e contemplativos e outros mais pró-activos. O Euroasianismo está hoje em dia muito ligado ao pensamento do académico russo Aleksandr Dugin, e é uma adaptação do modelo etno-pluralista europeu do filósofo francês Alain de Benoist ao caso russo.  Para a situação portuguesa imediata, penso que as contribuições do autor francês são mais relevantes do que o Euroasianismo.

Apesar de não existirem  actualmente movimentos políticos ou intelectuais “com alguma envergadura” em Portugal sente-se um interesse crescente dos jovens portugueses pelo tradicionalismo geral e pelo futuro da integridade de Portugal e da grande Europa, muitos deles já com experiência de viver em vários pontos do velho continente. Um contributo português importante poderia ser uma meditação sobre o que é ser português e europeu no antigo mundo imperial. Quais os erros que cometemos e quais as virtudes que adquirimos. Isto é algo que nem todos os países europeus podem testemunhar. Ademais, o facto de Portugal ser o princípio e o fim da Europa dá-lhe uma responsabilidade acrescida para delimitar fronteiras não só territoriais mas civilizacionais.


Chegará a Portugal em movimento semelhante?

Praticamente tudo o que de importante aconteceu na Europa alastrou pela mesma como fogo em gasolina, o que atesta os laços familiares de união entre europeus mesmo na ausência de uma entidade política una. Penso que tal irá acontecer de novo e se esta fonte de mudança viesse de Portugal para a Europa em vez do inverso, mais relevante seria para os portugueses, mas não mudaria a lógica  fundamental. O que falta para tal acontecer é difícil dizer; contudo, o mais importante é que seja o que for será feito sempre em parceria com o rumo europeu, tal como sempre foi em tempos monárquicos, republicanos, democráticos, autocráticos, etc. Enquanto Portugal for Portugal e a Europa for Europa, o nosso contributo estará sempre limitado pela nossa civilização e será dado em concerto com esta última.

Diz-se que os chineses, munidos pela filosofia budista, quando querem amaldiçoar alguém dizem “espero que vivas em tempos interessantes”. Parece-me que nos esperam tempos interessantes; mas no sentido europeu do termo... pois essa é a nossa tradição.

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